terça-feira, 30 de novembro de 2010

Espanha : La Coruña : O Frango Saltitante!

A vida de garçom estava muito cansativa. Eu saía da cafeteteria depois da meia noite! Detalhe: estudava de 8 da manhã as 20h da noite. Saía da faculdade direto pro trabalho e, no fim do expediente, não tinha mais ônibus pra voltar pra casa. Tinha que enfrentar 40 minutos de caminhada até em casa, no frio. Tudo isso para ganhar 10 euros por dia! E tudo piorava quando era meu Dia de Amélia.

-Dia de Amélia?

Miniflashback: Dia da Amélia

Morávamos sete pessoas em uma casa com três quartos e meio (um dos “quartos” era uma continuação do quarto principal!). Precisávamos nos organizar para manter a organização da casa: estabelecemos o Dia da Amélia. A limpeza diária das áreas comuns foi dividida em duplas. Dos 7 dias da semana, pelo menos 2 eram Dias da Amélia para cada morador. Tínhamos que ariar panela, lavar a pia (que era nojenta por sinal), varrer a casa, limpar o banheiro, esfregar a banheira… E chegando em casa quase 1 da manhã (ou mais!), tinha que fazer isso antes de dormir! E no dia seguinte, as 6 da manhã estaria de pé!

Procurei no jornal outras oportunidades, até que achei um classificado:

Procura-se jovens para se trabalhar com animação de festas.

Caraca, liguei na hora! A dona da Casa de Festas atendeu e disse que teria um prazer em me receber.

-Então, mas na verdade, não vou sozinho. Tenho um grupo de mais 6 brasileiros que querem ir, pode ser?

-Ótimo, podem vir todos para o treinamento!

Terceiro Emprego: Casa de Festas Fantasía Animación

DSC03565 Chegamos no dia seguinte e fomos recebido pela Lorena, uma espanhola de seus 20 e poucos anos. Ela era uma espécie de líder dos animadores! Distribui umas apostilas e começou a “dar a aula” teórica. Nós começamos a nos entreolhar, meio que achando aquilo bem engraçado. Uma aula de animação?? Com apostila e tudo?? Os tópicos eram ainda mais engraçados:

Tópico 1 – Como Fazer uma Criança Sorrir!

Tópico 2  - Um olho na Festa, dois olhos nas Crianças!

Tópico 3 – Músicas e Coreografias!

E assim foi indo!

Até que começou a hora MAIS DIVERTIDA: a aula prática!

Não sei o que me deu naquele dia, mas eu parecia realmente uma criança. Me empolguei muito nas brincadeiras, perdi toda a timidez que eu sempre tive. Parecia que eu tinha engolido um palhaço!

A hora mais engraçada e marcante foi quando a Lorena nos ensinou uma dancinha:

El baile del Pollo (A dança do Frango, em Espanhol!)

Eu incorporei um verdadeiro Frango, saltando e balançando a “colita”! Fiz meus amigos mijarem de tanto rir!!!!! Aquele dia ficou na história, tenho certeza que eles nunca vão esquecer! Muito menos eu!

Dá uma olhada no estilo da musiquinha e me imagine dançando isso:

Depois deste dia, não restou dúvida: no dia seguinte já me ligaram chamando para participar  de uma festa! Tinha finalmente conseguido um novo emprego, que pagava bem!

Mas eu ainda precisava “pedir demissão” da Cafeteria, e isso não foi tão fácil quanto parecia!

[Continua]

Espanha : La Coruña : Mas que vida boa!

Capítulo I – Mas que vida boa?!

Capítulo II – Cadelinha de Madame!

domingo, 28 de novembro de 2010

Espanha : La Coruña : Cadelinha de Madame!

A vida de panfletista não estava rendendo uma boa grana. Resolvi partir para ser garçom. (Se você perdeu o primeiro capítulo, leia aqui).

O plano era: imprimir uns 50 currículos e sair pela Ronda Outeiro inteira distribuindo em todos os bares, cafés e restaurantes. A Ronda Outeiro é uma grande avenida de La Coruña, que corta praticamente toda a cidade.

Primeiro obstáculo: o currículo. Nunca tinha trabalhado como garçom na vida. Meu currículo não era lá adequado a esse tipo de trabalho, né. E então? Menti, ué. Coloquei no currículo que já tinha trabalhado como serviços gerais, cozinheiro e garçom em restaurante brasileiro.

Então “bajei” toda a Ronda Outeiro. Um a um eu entreguei o currículo. A maioria já dizia que não estava precisando de ninguém. Será que eu teria que continuar distribuindo panfleto?

Fiquei meio desanimado e voltei pra casa. Mas até que meu celular toca.

-Hola, Rodrigo? Éres el tío que quieres trabajar?

-Sí, soy yo!

-Puedes venir acá mañana ya para empezar?

-Vale!

Caraca, o cara já queria que eu começasse no dia seguinte! Fiz um mini-curso básico de Café com minha amiga Port, que já estava trabalhando em uma Cafeteria, e seja o que Deus quiser!

No dia seguinte estava lá: de calça social preta, sapato e blusa social branca. Só faltou a borboletinha. Olha que ironia do destino: quando eu fiz minha mala para a Espanha, resolvi levar essa roupa social. Imaginei: certamente vou acabar sendo convidado para alguma festa bacana e tal. HA HA.

Segundo Emprego: Garçom de Cafeteria Espanhola

A Cafeteria Aderezzo é um típico café espanhol. O dono era um gordinho, baixinho, com cara de boa praça. Parecia o “baixinho da Kaiser”. A garçonete/gerente era uma espanhola de seus 40 anos, com cara de mau amada. Acho que eles tinham um caso. Mas enfim…

Chegou o momento mais esperado e temido: A BANDEJA. Quando eu era criança, sempre gostava de brincar de garçom. No fundo eu sabia que aquilo algum dia ia me servir pra alguma coisa. E até que eu não mandei muito mal. Obvio que em algumas vezes a bandeja dava aquela cambaleada e eu tinha que ajudar com a outra mão. Só uma vez que, sem querer, deixei cair da bandeja… Mas nunca deixei nada cair.

Todo dia quase as mesmas pessoas iam lá para tomar sempre as mesmas coisas: um expresso, um cortado, um solo doble, um café con hielo…

-O que? Meu Espanhol é ruim, mas você disse Café com Gelo???

-É isso mesmo, é uma tradição na Espanha beber café com gelo, principalmente no verão. Vai saber…

Chegavam, pediam sua bebida (que muitas vezes nem bebiam!!!), pagavam e iam embora.

A garçonete, sempre quando alguém entrava na cafeteria, me passava a ficha da pessoa:

-Esse é o Javier, sempre vem as 17:15 e bebe un cortado.

Impressionante, as pessoas nem se davam ao trabalho de fazer o pedido. Eu fazia o café e levava na mesa. A pessoa só agradecia.

Até que, um belo dia, chegou uma senhora com sua cadelinha.

-Essa é a Belén, sempre vem as 18:45. Ela bebe uma Coca-cola, com gelo e limão. A sua cadelinha bebe Água Perrier, natural.

-Oi? Tenho que servir a cadelinha?

-Mas é claro. A cambuquinha da Fifi é essa aqui. Vai logo, elas não gostam de esperar.

-Fifi? Vale!

E assim eu ia, todo dia, servindo o cortado do Javier, a Coca-Cola da Belén e a água da Fifi.

Mas não por muito tempo.

[Continua]

quinta-feira, 25 de novembro de 2010

Espanha : La Coruña : Mas que vida boa!

Morei 6 meses na Espanha. Quando eu digo isso todo mundo fala: “que vida boa!!!”.

Querem ver a vida boa?

Distribuí panfleto num frio da porra, servi água Perrier para cachorrinho de madame e balancei a busanfa para criancinhas catarrentas. Isso é vida boa?

Primeiro Emprego: Panfletista de Lanchonete Turca

Eu e meus companheiros de casa estávamos indo para a faculdade quando fomos abordados por um grupo de jovens distribuindo panfletos de uma kebabeira (lanchonete turca que vende kebab). Perguntei a um dos razapes: ”Hola, como hago yo para trabajar como tú?!” Ele respondeu que, por sorte, um dos donos estava ali naquela hora, que era pra eu conversar com ele. Esse “um dos donos” era um cara de uns 20 e poucos anos, loiro, de cabelo até os ombros. Meio grunge, meio estranho.

O cara disse que estava mesmo precisando e já iríamos começar no dia seguinte, em pleno sábado. As 10 da manhã estávamos lá no local combinado.

Ele nos meteu eu seu carro e foi nos levar para onde iríamos ficar para distribuir os folhetos. Estávamos no carro de um completo desconhecido, eu, minha ex e uma amiga nossa. O cara dirigia feito um louco e eu tentava pedir pra ele dirigir mais devagar. Ele ria. O esperto quis me deixar primeiro e ficar com as meninas no carro. Sou bobo, mas não sou otário. Disse que não, que eu seria o último. Por fim então ele me deixou numa esquina.

Cara, depois de uma meia hora distribuindo os folhetos, comecei a me perguntar: Que que eu tô fazendo aqui? Deixei a pilha de panfletos num banco e liguei pra casa. Não vou mentir, comecei a chorar desesperadamente. Não era só saudade. Sei lá…

Depois de falar com a minha mãe, me acalmei e tentei levar na boa. Era uma droga, a maioria do pessoal não pegava os folhetos. Seria mais divertido se eles pelo menos pegassem. Eu no início só dava um folheto pra cada pessoa, depois passei a usar a velha tática de dar uns 3 ou 4 pra acabar logo e mostrar serviço. O cara disse que ia nos pegar as 20h. Eu tava contando os segundos para o dia acabar. Ficar em pé naquele frio, naquela situação, era bastante angustiante. Dava 21 mas não dava 20h.

Finalmente deu 20h. Parei de distribuir e fiquei esperando o cara. 20:15. Nada.

Comecei a ficar preocupado com as meninas e fui procurar por elas. Cheguei aonde elas estavam e NADA. Elas simplesmente não estavam lá! CA RA LHO. Minha cabeça começou a pensar nas piores situações possíveis. Fiquei me crucificando, me culpando por ter permitido que elas ficassem longe de mim.

-Você sempre exagerando…Porque você não pegou seu celular e simplesmente ligou pra elas?

-Pq simplesmente elas não tinham celular. Tá satisfeito?

20:30. Nada.

Fui procurar por um orelhão para ligar pro cara. Nada dele atender.

20:45. Nada.

Eu ligava, ligava, ligava. E nada.

21:00. Nada.

Eu já não sabia mais o que fazer. Estava decidido a ir para a Polícia. Mas ao mesmo tempo ficava com medo de sair do ponto onde marcamos pois ele poderia passar e eu não estar.

21:15. Nova tentativa…

–Hola.

-Hola? Eu estou a mais de 1 hora te esperando, te liguei mais de 15 vezes e você não me atendeu!! – eu disse em Espanhol.

-Cálmate.

-Donde estás tu, hombre?

Eu gritava no telefone: DONDE ESTÁS TU? Y LAS CHICHAS?

Ele finalmente disse que a tarde, depois do almoço, colocou elas em outro lugar, com mais movimento. Mandou eu ir pra Lanchonete que elas estariam lá. Caraca, eu desliguei o telefone, tremendo de raiva e sai correndo pro restaurante. Corri mais rápido que o recordista mundial dos 50m livres. Quando cheguei, parecia filme de suspense. Me escondi atrás da pilastra para me certificar que realmente as meninas estavam lá. Não queria que ele me visse, sei lá, ele poderia querer me sequestrar também (na hora do desespero a gente pensa cada coisa!).

Elas estavam lá. Ele ainda não. Ufa, que alívio.

Pensamos em ir embora pra casa, mas se fossemos teríamos trabalhado o dia todo e não iríamos receber nada!

Quando deu umas 21:40 o cara chegou. Ficou mandando piadinhas pras meninas, rindo da minha cara e falando coisas em espanhol todo enrolado para eu não entender. E o pior: ainda quis pagar pelo nosso trabalho só até as 20h, que foi o horário que havíamos combinado. Eu tava com tanta raiva que nem a pau ia sair dali sem receber por essas quase 2 horas de angústia e apreensão.

27 euros. Foi o quanto isso tudo me valeu. 9 horas distribuindo um maldito panfleto amarelo, que manchou meus dedos por uns 2 dias com a tinta de péssima qualidade.

Depois desse dia ainda distribuímos alguns outros dias, mas realmente o esforço não compensava. Frio, cansaço e dores na coluna por muito pouco. Só sei que, daquele dia em diante, decidi NUNCA mais negar um folheto nas ruas. Seja de S.O.S Dinheiro, Aguinaldo Timóteo para Deputado, Trago de Volta o Amor Perdido ou de Loira Sensual FAZ TUDO. Se bem que esse último eu nunca neguei. Nunca se sabe…

Enfim, passei a procurar outro emprego… e achei!

[Continua]

segunda-feira, 22 de novembro de 2010

Angola : Luanda : Pôr do Sol!

Voltar para casa muitas vezes é uma tormenta, pois sei que vou enfrentar aqueeeeeeeele trânsito.
Mas tem dias que Angola me surpreende e me oferece um belo pôr do sol.







"Mas é claro que o Sol vai voltar amanhã.... Espera que Sol já vem!

segunda-feira, 1 de novembro de 2010

Espanha : Costa da Morte (continuação)

Capítulo I – Espanha : Costa da Morte!

O paredão se mostrava pra gente, como que fazendo um convite: vem! E fui!

Por sorte encontrei companhia, a Renata, uma das meninas que morava comigo. Detalhe: eu não tenho experiência nenhuma em descer paredões e ainda por cima estava com roupas totalmente inadequadas: calça jeans, que não te dá nenhuma mobilidade, e chinelo Havaianas, que dispensa comentários. Começamos a descida ainda imaginando que não conseguiríamos chegar até o final, mas fomos para ver até onde dava.

Fomos descendo e as pedras começaram a ficar mais úmidas, e escorregadias, mais afiadas e maiores. Quanto mais descíamos, mas queríamos descer.

DSC02173 

-Re, e ai? Descemos mais?

-Vambora!

As pernas tremiam, eu suava frio. Tinha horas que não tinha onde se apoiar para descer e eu ficava ali, parado, pensando no que eu iria fazer.

Mas, mesmo assim, com extrema dificuldade, conseguimos chegar lá! Ficamos em um estado de euforia que não tinha tamanho. Adrenalina despejando nas veias.

Vocês lembram do tamanho do paredão?? Olha isso:

CaboFisterra1

Nunca mais vou esquecer essa cena, eu, em pleno “fim do mundo”, na Costa da Morte!

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A noite começou a cair e nos lembramos que tínhamos que subir. Naquele momento tudo que eu mais queria era um elevador. A subida, se não foi mais difícil que a descida, foi tête-à-tête. Já estava escuro e as vezes “descer” um muro é mais fácil que subir né! Com certeza o pessoal lá em cima estava entrando em desespero. Ficamos sem dar sinal de vida por umas 2 horas!

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Descemos e subimos aquele paredão sem nenhum arranhão. Acho que dessa vez algum anjo metido a aventureiro me acompanhou.

P.s: Existe uma grande rivalidade entre Fisterra e o Cabo da Roca, em Portugal, sobre ser o ponte mais Oeste da Europa. O importante é que, na época romana, Fisterra era sim o ponto mais Oeste. Hoje em dia Cabo da Roca ganhou a fama, comprovada geograficamente. Mas pra mim, tanto faz, pois tive a honra de conhecer os dois lugares! :)

 

Mais informações: www.costadelamuerte.com

Digo a Bordo!

"Ao retornar de uma viagem, não sei se o mundo diminuiu ou eu é que cresci."

Quer sugerir um destino? Tirar Dúvidas? Ou somente elogiar mesmo?
Escreva para rodrigofranco@digoabordo.com
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