quinta-feira, 25 de novembro de 2010

Espanha : La Coruña : Mas que vida boa!

Morei 6 meses na Espanha. Quando eu digo isso todo mundo fala: “que vida boa!!!”.

Querem ver a vida boa?

Distribuí panfleto num frio da porra, servi água Perrier para cachorrinho de madame e balancei a busanfa para criancinhas catarrentas. Isso é vida boa?

Primeiro Emprego: Panfletista de Lanchonete Turca

Eu e meus companheiros de casa estávamos indo para a faculdade quando fomos abordados por um grupo de jovens distribuindo panfletos de uma kebabeira (lanchonete turca que vende kebab). Perguntei a um dos razapes: ”Hola, como hago yo para trabajar como tú?!” Ele respondeu que, por sorte, um dos donos estava ali naquela hora, que era pra eu conversar com ele. Esse “um dos donos” era um cara de uns 20 e poucos anos, loiro, de cabelo até os ombros. Meio grunge, meio estranho.

O cara disse que estava mesmo precisando e já iríamos começar no dia seguinte, em pleno sábado. As 10 da manhã estávamos lá no local combinado.

Ele nos meteu eu seu carro e foi nos levar para onde iríamos ficar para distribuir os folhetos. Estávamos no carro de um completo desconhecido, eu, minha ex e uma amiga nossa. O cara dirigia feito um louco e eu tentava pedir pra ele dirigir mais devagar. Ele ria. O esperto quis me deixar primeiro e ficar com as meninas no carro. Sou bobo, mas não sou otário. Disse que não, que eu seria o último. Por fim então ele me deixou numa esquina.

Cara, depois de uma meia hora distribuindo os folhetos, comecei a me perguntar: Que que eu tô fazendo aqui? Deixei a pilha de panfletos num banco e liguei pra casa. Não vou mentir, comecei a chorar desesperadamente. Não era só saudade. Sei lá…

Depois de falar com a minha mãe, me acalmei e tentei levar na boa. Era uma droga, a maioria do pessoal não pegava os folhetos. Seria mais divertido se eles pelo menos pegassem. Eu no início só dava um folheto pra cada pessoa, depois passei a usar a velha tática de dar uns 3 ou 4 pra acabar logo e mostrar serviço. O cara disse que ia nos pegar as 20h. Eu tava contando os segundos para o dia acabar. Ficar em pé naquele frio, naquela situação, era bastante angustiante. Dava 21 mas não dava 20h.

Finalmente deu 20h. Parei de distribuir e fiquei esperando o cara. 20:15. Nada.

Comecei a ficar preocupado com as meninas e fui procurar por elas. Cheguei aonde elas estavam e NADA. Elas simplesmente não estavam lá! CA RA LHO. Minha cabeça começou a pensar nas piores situações possíveis. Fiquei me crucificando, me culpando por ter permitido que elas ficassem longe de mim.

-Você sempre exagerando…Porque você não pegou seu celular e simplesmente ligou pra elas?

-Pq simplesmente elas não tinham celular. Tá satisfeito?

20:30. Nada.

Fui procurar por um orelhão para ligar pro cara. Nada dele atender.

20:45. Nada.

Eu ligava, ligava, ligava. E nada.

21:00. Nada.

Eu já não sabia mais o que fazer. Estava decidido a ir para a Polícia. Mas ao mesmo tempo ficava com medo de sair do ponto onde marcamos pois ele poderia passar e eu não estar.

21:15. Nova tentativa…

–Hola.

-Hola? Eu estou a mais de 1 hora te esperando, te liguei mais de 15 vezes e você não me atendeu!! – eu disse em Espanhol.

-Cálmate.

-Donde estás tu, hombre?

Eu gritava no telefone: DONDE ESTÁS TU? Y LAS CHICHAS?

Ele finalmente disse que a tarde, depois do almoço, colocou elas em outro lugar, com mais movimento. Mandou eu ir pra Lanchonete que elas estariam lá. Caraca, eu desliguei o telefone, tremendo de raiva e sai correndo pro restaurante. Corri mais rápido que o recordista mundial dos 50m livres. Quando cheguei, parecia filme de suspense. Me escondi atrás da pilastra para me certificar que realmente as meninas estavam lá. Não queria que ele me visse, sei lá, ele poderia querer me sequestrar também (na hora do desespero a gente pensa cada coisa!).

Elas estavam lá. Ele ainda não. Ufa, que alívio.

Pensamos em ir embora pra casa, mas se fossemos teríamos trabalhado o dia todo e não iríamos receber nada!

Quando deu umas 21:40 o cara chegou. Ficou mandando piadinhas pras meninas, rindo da minha cara e falando coisas em espanhol todo enrolado para eu não entender. E o pior: ainda quis pagar pelo nosso trabalho só até as 20h, que foi o horário que havíamos combinado. Eu tava com tanta raiva que nem a pau ia sair dali sem receber por essas quase 2 horas de angústia e apreensão.

27 euros. Foi o quanto isso tudo me valeu. 9 horas distribuindo um maldito panfleto amarelo, que manchou meus dedos por uns 2 dias com a tinta de péssima qualidade.

Depois desse dia ainda distribuímos alguns outros dias, mas realmente o esforço não compensava. Frio, cansaço e dores na coluna por muito pouco. Só sei que, daquele dia em diante, decidi NUNCA mais negar um folheto nas ruas. Seja de S.O.S Dinheiro, Aguinaldo Timóteo para Deputado, Trago de Volta o Amor Perdido ou de Loira Sensual FAZ TUDO. Se bem que esse último eu nunca neguei. Nunca se sabe…

Enfim, passei a procurar outro emprego… e achei!

[Continua]

2 comentários:

  1. Cara, lendo seu post... por um momento parece que vivi essa tensão toda. Que faaase broder. Mas pelo menos vc passou esse perrengue todo na Espanha! hahaha... pior seria se fosse no Brasil (que nem eu!) hahaha.

    ResponderExcluir

Digo a Bordo!

"Ao retornar de uma viagem, não sei se o mundo diminuiu ou eu é que cresci."

Quer sugerir um destino? Tirar Dúvidas? Ou somente elogiar mesmo?
Escreva para rodrigofranco@digoabordo.com
Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...